EDUCAÇAO INFANTIL E AS PRIMEIRAS APRENDIZAGENS[1]
Sandra Richter
Professora – UNISC/RS
A educação infantil é o tempo e o lugar privilegiado de acompanhar as primeiras experiências de aprendizagem das crianças . Portanto , é o tempo e o lugar que exige dos adultos a responsabilidade pelo acolhimento à tensão que é o momento de realizar algo pela primeira vez ! As primeiras aprendizagens no coletivo exigem a consideração educativa das dificuldades vividas que cercam a experiência de aprender a tentar , repetir , experimentar , os obstáculos que cada criança enfrenta em seus esforços para ultrapassá-los e superá-los, os equívocos necessários e os inúteis, os medos e as alegrias espontâneos ante o espanto da novidade que é o desconhecido .
Torna-se, então , importante considerar a experiência da primeira vez como experiência sensível de um corpo que se lança no movimento insaciável de aprender a provar o gosto do mundo , de tocar o vivido , de experimentar o saber saboreando-o: como tateio de si , como investigação afetiva do vivido . Aqui , a aprendizagem não é síntese , menos ainda processo cumulativo do percebido, mas metamorfose do corpo em abertura para a experiência temporal de tornar-se na simultaneidade que o mundo vai tornando-se para si e para os outros . Invenção e existência aderem-se, o imprevisível acontece, faz-se, forma-se, torna-se. A criança vai aprendendo a forjar pensamento nessa abertura de começar algo para alcançar o limite da experiência e aumentar o campo para outras experiências .
Nesse movimento sensível de perscrutar no corpo as sensações de estar inextrincavelmente misturada ao mundo e aos outros , há sempre algo diante dela: a experiência de decifrar . Não temos outro modo de saber do mundo senão afirmando sua indeterminação a cada instante que se torna em nós . Como já disse Deleuze (1998, p.10), “não há aprendiz que não seja ‘o egiptólogo ’ de alguma coisa ”, que não enfrente enigmas sem os decifrar pois são os problemas que dão sentido às soluções e não o contrário . Nessa perspectiva , aprender é uma tarefa infinita já que não há nada prefigurado, previsto , predeterminado a aprender .
Nesse processo experiencial do devir das condutas na convivência mundana , a criança aprende a redimensionar o já emocionado – o já ritmado no corpo – brincando e fabulando. Aprende a começar algo para tomar a iniciativa de ir até às coisas : sair de si para entrar no mundo e nele inscrever pensamentos e ações que promovem a experiência de pertencimento e participação.
O importante a reter das primeiras experiências de decifrar o vivido é o ato de começar-se, isto é, de que há iniciação e não posição de um conteúdo , portanto de abertura de uma dimensão que não poderá mais vir a ser fechada pois será a textura que tonalizará as experiências daquela criança daqui em diante . O acontecer pela primeira vez distingue-se dos demais atos porque não pode tornar a ser aprendido! A primeira vez é insubstituível em seu acontecimento corporal único e singular pela intensidade da expectativa , da novidade , do inusitado que é fazer emergir a ruptura com o já corporizado, atualizando-o. É o corpo que aprende: o corpo sempre é reservatório .
O acontecer pela primeira vez distingue-se dos demais atos porque não pode tornar a ser aprendido! A primeira vez é insubstituível em seu acontecimento corporal único e singular pela intensidade da expectativa , da novidade , do inusitado que é fazer emergir a ruptura com o já corporizado, atualizando-o. Assim , as primeiras aprendizagens são insubstituíveis , só podemos repetí-las. Repetição , aqui , não no senso comum do fazer igual mas enquanto realimentação que implica a continua reelaboração do que aconteceu antes . Experiências não apenas imediatamente agradáveis mas realimentadoras de experiências por vir .
Na multiplicidade e plasticidade de movimentos do corpo linguageiro pulsa o convite ao brincar , refazer , rearranjar .... pulsa o convite a fazer de novo . A cada novo arranjo as crianças começam “mais uma vez ”, realizando aquilo que especifica a brincadeira : o fazer sempre de novo entre a “busca da novidade ” e a “compulsão à repetição ”, até transformar a experiência mais comovente em hábito . Aqui , para Benjamin (1994, p. 253) vigora a lei da repetição : a criança recria a experiência , começa sempre tudo de novo , desde o início A repetição é o cerne da brincadeira : nada dá mais prazer à criança que “brincar outra vez ”.
O que os primeiros movimentos do corpo plasmados pelos primeiros gestos das crianças sobre o mundo nos fazem constatar é o complexo processo de formação do ato de aprender a desvendar os segredos das linguagens a partir de pequenos detalhes que remetem a uma sensibilidade extrema para significações íntimas das coisas insignificantes : a valoração infantil do detalhe que impele, mobiliza, impulsiona, o ato de aprender o poder do corpo trazer à tona linguagens que permitam experimentar o que no real se oculta.
[1] Texto elaborado a partir da filosofia da diferença e das fenomenologias da imagem poética em Gaston Bachelard , do corpo em Maurice Merleau-Ponty e da ação em Paul Ricoeur.
[2] Para Merleau-Ponty, como para Francisco Varela (1997), o termo corporalidade tem duplo sentido : abarca o corpo como estrutura experiencial vivida e o corpo como o contexto ou âmbito dos processos cognitivos. É afirmar o corpo como dimensão simultaneamente biológica e fenomenológica. Conforme nota 236.
Nenhum comentário:
Postar um comentário