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sábado, 3 de dezembro de 2011

Educação Infantil

EDUCAÇAO INFANTIL E AS PRIMEIRAS APRENDIZAGENS[1]



                                                                                  Sandra Richter
                                                                                  Professora – UNISC/RS



A educação infantil é o tempo e o lugar privilegiado de acompanhar as primeiras experiências de aprendizagem das crianças. Portanto, é o tempo e o lugar que exige dos adultos a responsabilidade pelo acolhimento à tensão que é o momento de realizar algo pela primeira vez! As primeiras aprendizagens no coletivo exigem a consideração educativa das dificuldades vividas que cercam a experiência de aprender a tentar, repetir, experimentar, os obstáculos que cada criança enfrenta em seus esforços para ultrapassá-los e superá-los, os equívocos necessários e os inúteis, os medos e as alegrias espontâneos ante o espanto da novidade que é o desconhecido.
Torna-se, então, importante considerar a experiência da primeira vez como experiência sensível de um corpo que se lança no movimento insaciável de aprender a provar o gosto do mundo, de tocar o vivido, de experimentar o saber saboreando-o: como tateio de si, como investigação afetiva do vivido. Aqui, a aprendizagem não é síntese, menos ainda processo cumulativo do percebido, mas metamorfose do corpo em abertura para a experiência temporal de tornar-se na simultaneidade que o mundo vai tornando-se para si e para os outros.  Invenção e existência aderem-se, o imprevisível acontece, faz-se, forma-se, torna-se. A criança vai aprendendo a forjar pensamento nessa abertura de começar algo para alcançar o limite da experiência e aumentar o campo para outras experiências.
 Nesse movimento sensível de perscrutar no corpo as sensações de estar inextrincavelmente misturada ao mundo e aos outros, há sempre algo diante dela: a experiência de decifrar. Não temos outro modo de saber do mundo senão afirmando sua indeterminação a cada instante que se torna em nós. Como disse Deleuze (1998, p.10), “nãoaprendiz que não seja ‘o egiptólogo’ de alguma coisa”, que não enfrente enigmas sem os decifrar pois são os problemas que dão sentido às soluções e não o contrário. Nessa perspectiva, aprender é uma tarefa infinita que nãonada prefigurado, previsto, predeterminado a aprender.
  Por estar desarmada de conceitos e idéias do que sejam as coisas mundanas, a criança estabelece uma relação direta com o que a cerca.  As lembranças são ainda fugazes, rápidas, pois um corpo está em emergência, uma história se constituindo, imagens sendo fundadas, afecções aprendidas, o sentir sentido-se em estado primal. O tempo da primeira vez é o tempo da inexperiência, da incerteza, mas também é o tempo do corpo operante e atual em movimento de formação em reflexãoem sua decisão de começar algo no mundo. Trata-se de “emprestar seu corpo ao mundopois iniciar um gesto queoutro rumo às coisas não é uma decisão do espírito, não nasce de umato de consciênciamas origina-se do corpo como um sensível que, silenciosamente, diz “eu posso” sobre o mundo.
Nesse processo experiencial do devir das condutas na convivência mundana, a criança aprende a redimensionar o emocionado – o ritmado no corpo – brincando e fabulando.  Aprende a começar algo para tomar a iniciativa de ir até às coisas: sair de si para entrar no mundo e nele inscrever pensamentos e ações que promovem a experiência de pertencimento e participação. 
O importante a reter das primeiras experiências de decifrar o vivido é o ato de começar-se, isto é, de queiniciação e não posição de um conteúdo, portanto de abertura de uma dimensão que não poderá mais vir a ser fechada pois será a textura que tonalizará as experiências daquela criança daqui em diante. O acontecer pela primeira vez distingue-se dos demais atos porque não pode tornar a ser aprendido! A primeira vez é insubstituível em seu acontecimento corporal único e singular pela intensidade da expectativa, da novidade, do inusitado que é fazer emergir a ruptura com o corporizado, atualizando-o. É o corpo que aprende: o corpo sempre é reservatório.
Por isso, o tempo da corporalidade[2] das crianças é o lugar de intensas aprendizagens . É aqui, e não em outra idade, que a criança vai aprendendo a se movimentar, caminhar, pegar e mexer nas coisas, gostar e desgostar, chorar, rir, correr, pular, cair, ter medo e se maravilhar. Aprendizagens fundantes de um corpo que culturalmente também vai aprendendo a olhar, falar, cantar, ouvir, desenhar, modelar, dançar, pintar, contar, fazer-de-conta. Vai aprendendo, rápida ou lentamente, a complexidade do agir e emocionar-se na convivência com outros, aprendendo a interpretar e tomar decisões, a imaginar e narrar, a relacionar e valorar. Aprende a tornar-se o que é e o que pode vir a ser no fluir da convivência com outros, ao viver intensamente momentos privilegiados de aprendizagens – porque momento de extrema plasticidade – único em seu acontecer: o momento da primeira vez!
O acontecer pela primeira vez distingue-se dos demais atos porque não pode tornar a ser aprendido! A primeira vez é insubstituível em seu acontecimento corporal único e singular pela intensidade da expectativa, da novidade, do inusitado que é fazer emergir a ruptura com o corporizado, atualizando-o. Assim, as primeiras aprendizagens são insubstituíveis, podemos repetí-las. Repetição, aqui, não no senso comum do fazer igual mas enquanto realimentação que implica a continua reelaboração do que aconteceu antes. Experiências não apenas imediatamente agradáveis mas realimentadoras de experiências por vir.
Na multiplicidade e plasticidade de movimentos do corpo linguageiro pulsa o convite ao brincar, refazer, rearranjar .... pulsa o convite a fazer de novo. A cada novo arranjo as crianças começam “mais uma vez”, realizando aquilo que especifica a brincadeira: o fazer sempre de novo entre a “busca da novidade” e a “compulsão à repetição”, até transformar a experiência mais comovente em hábito. Aqui, para Benjamin (1994, p. 253) vigora a lei da repetição: a criança recria a experiência, começa sempre tudo de novo, desde o início A repetição é o cerne da brincadeira: nadamais prazer à criança quebrincar outra vez”.
O que os primeiros movimentos do corpo plasmados pelos primeiros gestos das crianças sobre o mundo nos fazem constatar é o complexo processo de formação do ato de aprender a desvendar os segredos das linguagens a partir de pequenos detalhes que remetem a uma sensibilidade extrema para significações íntimas das coisas insignificantes: a valoração infantil do detalhe que impele, mobiliza, impulsiona, o ato de aprender o poder do corpo  trazer à tona linguagens que permitam experimentar o que no real se oculta.



[1] Texto elaborado a partir da filosofia da diferença e das fenomenologias da imagem poética em Gaston Bachelard, do corpo em Maurice Merleau-Ponty e da ação em Paul Ricoeur.
[2] Para Merleau-Ponty, como para Francisco Varela (1997), o termo corporalidade tem duplo sentido: abarca o corpo como estrutura experiencial vivida e o corpo como o contexto ou âmbito dos processos cognitivos. É afirmar o corpo como dimensão simultaneamente biológica e fenomenológica. Conforme nota 236.

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